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A arte como transformador humano

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A arte acompanha o homem desde os seus primórdios, por este motivo, a história da arte caminha intrinsicamente atrelada a história da própria humanidade e não existe fora do tempo e da cultura a que ela é submetida. Encontramos em todos os estágios da evolução social do homem a eterna relação entre a transformação de sua natureza com a natureza da arte. Exemplos simples dessa relação de contexto, arte e transformação podem ser observados em todos os recortes acerca do tema que, ao final, se contemplam em camadas, uma sobre a outra, num eterno diálogo entre o homem sensível e o mundo inteligível, sendo impossível destacar apenas um.

Ainda na Idade Antiga a descoberta da escrita avançada traz fortes modificações e avanços para a arte da época, iniciando todas teorias filosóficas, estéticas e sociais que homem está inserido até hoje. O pensamento do homem da época se direciona completamente para uma busca incessante daquilo que era tido como a perfeição absoluta e todo movimento artístico se volta para a busca do bem e do belo, marcando esse período pelo domínio da técnica, grandeza estética e a busca infinita daquilo que poderia ser definido como bom.

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Com o fim do domínio cultural, político e filosófico da Grécia a abordagem da filosofia como uma reflexão exclusivamente racional desaparece e junto deste pensamento também desaparecem muitas das suas técnicas artísticas. O período que se inicia fica conhecido mais tarde como o Período Medieval ou Idade Média e toda questão chave que vai atravessar a filosofia e a arte desse período no Ocidente circunda a harmonização entre “a fé” e “a razão”. No entanto, a queda do Império Romano do Oriente revive na Itália todas as ideias de Platão e desperta o homem moderno para a importância da existência material. O humanismo, o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Francesa e a Industrialização são todos sintomas da cultura dessa época e da nova configuração que articula a mente humana a partir desse período. Kant em sua terceira crítica (do Juízo de Gosto), altera profundamente o que se entendia por estética até então, e a arte, que exercia papel fundamentalmente essencial (representacionalismo, expressionismo e formalismo), agora assume o foco de papel transformador social, inaugurando o período conhecido como Idade da Razão.

Para Kant, a arte compreende um gênero de conhecimento autônomo onde as leis da natureza e da razão não são aplicáveis e, mesmo assim, podem ser pensadas e reconduzidas à filosofia. Friedrich Schiller, pensador Francês da mesma época de Kant, em um pensamento muito similar, também coloca a arte em um terceiro mundo, surgindo então como uma ponte que liga o homem do mundo físico ao homem do mundo ideal. A partir da arte o homem físico perde a sua arbitrariedade e se aproxima da lei da razão, e o homem ideal deixa de ser puramente espontâneo para realizar-se no campo material. É nesse cenário do Alto Renascimento que surge Leonardo da Vinci, nascido em 15 de abril de 1452, reconhecido como um dos artistas mais completos de todos os tempos e homenageado na escolha da comemoração dessa data, dia Mundial da Arte.

Para idealizar suas obras Da Vinci realizou inúmeros estudos no que diz respeito as mais diversas áreas. Arquitetura, engenharia civil, matemática, escultura, óptica e até anatomia humana tornando-se responsável por um grande número de invenções muito a frente do seu tempo. Aficionado pela busca da perfeição e apaixonado pela ciência e pela expressão artística, Leonardo acreditava que a beleza primordial podia ser imortalizada apenas pela arte e que esta era a lei suprema da mesma.

A invenção da máquina a vapor, a produção de ferro e a estação de carvão dão início a revolução Industrial e a produção em série. Os ideais iluministas reverberam não somente nas mudanças sociais da Europa como também dentro do continente Americano e transformam as estruturas de poder existentes por todo o globo. Todas essas mudanças inquietam os artistas da época que começam a reconsiderar toda a autoridade da arte acadêmica fazendo surgir movimentos artísticos interessados principalmente em questionar e transformar o comportamento do homem e da sociedade que o rodeia. O romantismo, o impressionismo, o pós-impressionista (agora afastado do naturalismo), o cubismo, o expressionismo, o simbolismo, o sintetismo, o futurismo e o dadaísmo são alguns dos principais importantes movimentos desse período que estudam e experimentam a implicação da arte, de seus materiais e dos seus efeitos expressivos para questionar nossos modelos relacionais daquele período, moldando a mente de toda uma juventude idealista.

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A Primeira Guerra acaba trazendo grandes avanços para o mundo moderno, no entanto, a Grande Depressão golpeia toda confiança do homem no futuro e lança o homem agora para discutir eventos históricos, avanços tecnológicos e científicos, nosso papel na sociedade, os sistemas de governo, a relação do homem com as máquinas e o próprio livre-arbítrio. Em meio a isso, em 1919, na Alemanha, o arquiteto Walter Gropius cria o manifesto Bauhaus e inicia então um novo conceito de estética e funcionalidade. Com a intenção de “criar uma nova guilda de artesãos sem as distinções de classe que erguem uma barreira arrogante entre artesão e artista” Gropius revoluciona pra sempre a formação em design. Pouco tempo depois, os anos que seguem à Segunda Guerra Mundial, testemunham então uma ampla aceitação da arte abstrata na Europa e o florescimento da pop art, que marca um fenômeno artístico onipresente nos dois lados do Atlântico e inicia os movimentos pós-modernos com a primeira tentativa de entender qual o papel do artista e de seu produto no moderno mundo do consumo e da comunicação em massa. Nesse cenário aparecem a arte conceitual – que busca questionar a própria natureza da arte, a arte performática, a etiqueta minimalista e a arte digital. Uma nova visão do mundo material e do consumo envolve o homem contemporâneo, o materialismo da primeira sociedade de consumo sai de moda e o que entra em vigor agora é o mercado da alma e da sua transformação, do equilíbrio, da autoestima e da busca do prazer da experiência pela experiência.

E é nesse contexto de diálogo de transformação e questionamentos racionais que a própria cultura artística criada a partir do início do humanismo, devolve ao homem contemporâneo a ideia do poder de escolha em detrimento da ideia da indústria geradora de conteúdo massivo e alavanca coletivos, projetos transmídias, regionalidades, devolve o valor do artesanato e legitima o direito do consumidor/espectador de questionar a própria indústria e a própria arte. Traçando assim um novo perfil de consumidor de arte, design e conteúdo, e um novo desafio para o artista/artesão: o desafio de unir o conceito ‘’bens de conforto’’ ao conceito ‘’bens de criatividade’’, aonde os bens de conforto são aqueles que nos oferecem estímulos imediatos, sensações prazerosas de curto prazo e os bens de criatividade são relacionais, culturais, estimulantes e com tendência a durar a longo prazo. Agrupando, camada por camada, toda trajetória da arte, da filosofia, da sociedade e do próprio homem.

Por isso, nessa data de comemoração da arte, contemplamos não somente todas as manifestações artísticas já vivenciadas pelo homem, como também toda transformação que essas expressões causaram no cerne da própria sociedade, toda evolução advinda desses movimentos, toda tecnologia proveniente dessas transformações e, principalmente, toda emancipação do homem em relação as suas escolhas de consumo, ainda crentes de que é na arte que o homem encontra a beleza mais pura, por vezes, imortalizada.

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